a minha solidão conhece a sua. milhares de mulheres mães do mundo interligadas por um feixe de luz invisível. todas insones nas madrugadas adentro de peito pra fora numa grande egrégora. silenciosamente enxugando as lágrimas, silenciosamente dando conta do impossível e sem dar muita vez ao tamanho do cansaço. querendo gritar nas janelas, abrir clareiras, mergulhar em banheiras cheias de espuma & água quentinha. sozinhas ainda que sempre acompanhadas, sozinhas ainda que falando sempre com as amigas, sozinhas ainda que com companheiros, companheiras, companheires. mais sozinhas ainda se são totalmente solo. a maternidade é uma fenda no tempo, é um salto pela janela onde não se vê o que tem embaixo, é uma montanha russa de medos, amor, saudades, luto, desejo, apatia, inseguranças, falta de tempo, paranóias, indignações, mais amor, muito amor, um amor que chega a doer naquele ponto do corpo perto do plexo solar, sabe? na boca do estômago, na porta da angústia. me sinto muito sozinha e sei que você também. a minha solidão conhece a sua, mas elas não se cruzam exatamente. há milhões de coisas na sua história que jamais serei capaz de acessar e você também não vai conseguir acessar tudo aquilo que sinto. e aí não há equivalência alguma. mas existem pontes. sei que você passa por algo tão desconhecido quanto eu e por isso sou solidária. além de solitária. uma parte imensa de mim morreu e tem outra completamente desconhecida na minha frente. não sei mais do que gosto, não sei qual minha comida preferida, que tipo de roupa me veste, que sonho faz parte do meu coração agora. continuo buscando, mas tem muita névoa e se me afasto da minha cria fico ainda mais sem chão, mesmo sabendo que preciso às vezes de distância pra poder me localizar no meio de tanto nevoeiro. dizem que um dia a gente atravessa, mas não sei se há forma de parar de sentir esse aperto no peito misturado com saudade misturado com medo misturado com vontade misturado com gratidão misturado com o desejo de controlar absolutamente tudo. se ainda o mundo ajudasse. se ainda nos dessem tempo de sentir e de poder se abismar diante de tanta vida, diante de tanta radicalidade. todas as mães do mundo se encontram em estado de solidão. de mãos vazias numa madrugada fria sem tempo pra poder dizer que cuidam umas das outras. em silêncio. em telepatia. em poeira cósmica. sendo braço estendido e ouvido atento. transpirando ocitocina, abraçando o mistério, eremitas de si mesmas, no mais dentro dentro dentro.

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Atualizado: 6 de ago.



sinto que estou no contra-tempo do mundo. todo aquele papo de “sairemos melhores dessa pandemia”, parece que não era verdade, era cilada. tenho a sensação de que desde que o mundo “voltou”, ninguém parou. a dinâmica maluca das redes sociais, o desespero por dinheiro, querer recuperar 2 anos que se passaram a qualquer custo, enfim, tenho a sensação de que está tudo mais acelerado do que nunca. e a pandemia continua.


as pessoas foram afrouxando os cuidados, os eventos foram voltando & minha filha nasceu. quando a pandemia parecia estar passando, em pleno dia 24 de novembro de 2021 um novo mundo começava pra mim. olá, puerpério. olá, pandepério.


virar mãe é perder a noção do tempo. é não caber na medida do relógio, é confundir a cronologia das coisas, é transbordar de amor e de cansaço. é ter que dar conta do indizível. é não dar conta, sobretudo. vivo o meu puerpério enquanto o mundo tenta recuperar o tempo perdido. eu sou o próprio tempo perdido. sou o próprio tempo ganhado. sou o próprio tempo. ou não sou nada disso.


ter uma bebê em casa é renascer a todo instante. é exercitar constantemente a presença ~ quando me perco dela, minha filha percebe e todos aqui em casa nos perdemos. é piscar e ver que um fio de cabelo cresceu, um dente brotou, um gesto novo que até ontem não aparecia, agora está aqui. acho que nunca me senti tão viva, tão criativa, tão cheia de desejos.


não que seja fácil. não é nem um pouco. ter uma bebê em casa é também ter muitas privações. é ter saudade de uma época que acabou. é toda hora ter que lidar com a frustração de não concluir aquilo que foi planejado. é perder o rumo das programações. é a capacidade de improvisar e se refazer. toda toda toda hora.


enquanto aprendo a ser mãe, estou grávida de novo. calma, gente. estou falando de um disco. tenho um disco novo no forno. sendo feito como a minha vida anda sendo ~ feita, refeita, remendada, reconstruída. alguns tropeços, alguns saltos imensos, algumas frustrações, muitos desejos. o sonho de uma vida longa & próspera & uma dança infinita com esse trabalho. encontros sendo firmados e reconhecidos. um disco que me faz olhar no espelho e me perceber tão diferente, tão igual.


toda hora que rolo o feed do instagram sinto que estou demorando demais para mostrar esse trabalho pra vocês. ledo engano: em 2 anos vivemos uma pandemia que ainda nem tivemos tempo de assimilar, fiquei grávida, tive minha filha Cora, gravei um disco, estou aprendendo a ser Julia outra vez. respiro fundo e lembro que o tempo é circular. e vou aos poucos abraçando o meu lugar. esse disco está no forno. e virá!


fecha os olhos comigo e lembra: estamos vivos. e isso é tudo. e isso é muito, diante de tudo o que passamos. de tudo o que estamos passando.


fica aquele sentimento: não tenha medo de perder tempo.

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Atualizado: 10 de jul.


foto Luísa Horta

Sou Julia Branco. Canto porque escrevo, escrevo porque canto. E este aqui é um espaço para compartilhar textos. Para não guardar o que precisa de ir para o mundo. Para que as palavras não morram em silêncio. Para que eu me encontre com você. É um blog? Um diário? Uma coluna? Um começo de canção? Nada disso, tudo isso.


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