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desejo de permanência


meu companheiro me disse enquanto eu pegava a nossa filha para fazê-la dormir “numa próxima vida, tente fechar as portas que você abrir.” ri baixinho. ele também. a referência era ao fato de eu sempre abrir todas as portas da casa e jamais fechá-las. e o conselho dele tinha a ver com fato de que para fazer a nossa filha dormir a gente precisava sobretudo da casa escura, em penumbra. coisa que milhões de portas abertas acabavam dificultando, uma vez que alguma delas deixaria passar a luz, óbvio. mas recebi essa mensagem do meu amor quase em oráculo. ou melhor, em metáfora. para a pessoa do signo de áries que sou, minha maior dificuldade talvez seja essa: aprender a fechar as portas que abri.


gosto de começar coisas. projetos, cartas, e-mails, músicas, amizades. meu compromisso é com a alegria e com o instante inaugural. já disse isso uma vez numa canção e a faísca do início me chama. tenho um comichão interno quando estou pra fazer uma aula experimental de algo, se sou chamada pra um novo trabalho, se vou viajar para um lugar jamais visitado. o frisson da novidade, adoro. segundas-feiras, amo cada vez mais. a possibilidade de iniciar qualquer coisa que seja (um curso, uma conversa, um livro, uma série do netflix…) vai sempre me encher de vida. o meu problema é com a conclusão.


lembro quando era criança e queria brincar de alguma coisa, tipo de barbie, risos. preparava tudo pra brincadeira, montava a casa da barbie, movélzinho por movélzinho, pegava todos as bonecas and bonecos possíveis, penteava os cabelos deles e delas, montava um circo. quando tava pronta pra brincar, tava enjoada, queria a próxima novidade. a casa da barbie já não era tão legal. e aí começava outra coisa. minha mãe chegava do trabalho e via aquele quarto cheio de inícios e tentava: “filha, vamos aprender a guardar o que você não quer mais antes de pegar outro brinquedo…” não sei se as palavras da minha mãe faziam sentido em algum sentido em mim. a vida é grande, tem tanta coisa que quero fazer! como é difícil fixar a minha atenção em apenas uma escolha.


já me perguntei se tenho déficit de atenção. mas acho que, em 2022, todo mundo tem déficit de atenção. como ser focado em apenas uma coisa numa vida com tantos estímulos? fato é que agora já não tenho todo o tempo do mundo. sou mãe de uma bebê de 11 meses que me convoca para um estado de presença que não cabe nas notificações do whatsapp. tenho que fazer escolhas, sim ou sim. e, aquilo que escolho, por conta do meu tempo agora tão escasso, precisa ser levado até a última gota. não posso mais começar coisas sem concluir. não há possibilidade de eu me dar esse luxo.


talvez a minha dificuldade em fechar portas esteja aí: tenho muito medo da morte. nunca gostei de despedidas. o inconcluso talvez seja o mais perto de ser infinito? talvez. mas ser uma pessoa adulta tem a ver com saber que se não encerramos ciclos, nada de novo irá brotar. e, pra quem ama tanto os inícios como eu, é preciso aprender a honrar os fins.


tô tentando encontrar uma forma de finalizar esse texto e, veja só, já tenho um comichão de ir fazer outra coisa e voltar aqui mais tarde. mas, não. vou concluir ainda que não seja fique totalmente satisfeita. venho aprendendo a fechar portas, ainda que seja difícil. venho, sobretudo, aprendendo a não abrir todas as portas que aparecem. sou finita, não tenho um tempo inesgotável, preciso aprender a escolher.


talvez a minha grande escolha tenha sido me casar com um taurino. se a gente entrar no papo de signos, touro é esse signo que não desiste. que vai fundo naquilo que começou.


com o meu companheiro, com o meu amor, tenho aprendido a permanecer. e amado muito estar aqui. exatamente aqui.



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