Depoimentos

Música contemporânea mineira. Tão bom de ouvir… Julia Branco fez um disco delicado, autoral, cheio de participações bacanas. Me fez lembrar de Joyce estreando no final dos anos 60. O poder do feminino com 50 anos entre esses dois trabalhos. Sou forte, sou grande, sou do tamanho do medo. Medo de ser muito feliz e pirar. Toda mulher se sente assim. Hora ou outra. Bonito de ver esse trabalho solo, uma jovem mulher fazendo música que transforma, falando de si, de seus desejos, de suas descobertas. Julia tem uma voz linda e forte. Tem presença alegre no palco e no disco. E sabe se cercar de bons parceiros. A produção de Chico Neves é notadamente impecável. Um capricho recheado de detalhes. Desejo uma bela estrada pra esses cavalos que ela solta agora. E que venham muitos mais.

Patrícia Palumbo

 
 

"Soltar os Cavalos" excita e incita uma grande rebelião no zoológico que carrego dentro de mim. Os bichos todos correm e berram numa mistura de força e graça.

Faz berrar meu feminino, faz dançar meu feminino. Faz olhar no olho do medo e sorrir de leve pra ele. Me emociona a honestidade, honestidade de bicho, que só sabe ser o que se é.

Uyara Torrente

 

Diríamos que ela chegou com o sopro de Iansã. Mas não evocaremos as deusas, neste começo. Diremos apenas que ela chegou quando o sol entrou na casa de Áries, com força e suavidade. Profundamente desejada e com amor. A mãe lia O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, enquanto tentava induzir o parto. O soro na veia e o segundo sexo ali, incompreensível, diante de seus olhos.  A mãe ainda não sabia o que a aguardava: a força e a suavidade daquela menina estariam definitivamente cravadas em seu primeiro grito. Ali, naquele justo momento, ela a faria chorar, para sempre comovida e para sempre ligada, por uma fita de voo, à voz da mãe de sua mãe. Hoje, neste disco solo, ela retorna ao azul com que, um dia, a mãe a cobriu. Retorna ao azul e abre-se ao infinito de um céu, que é também colchão de nuvens para esta cavala alada que voa com a voz. “Sexo é um território extenso”—ela canta. Feminina, feminista, ela talvez ainda não saiba que descobriu, no galope da cavala, na voz do vento, o terceiro sexo.

Lucia Castello Branco

 

Júlia está nua. E é isso que a gente quer ver com os ouvidos. A beleza de ser uma mulher real, realeza, que tem força e sensibilidade no canto. Que encanta, que atravessa sem forçar. Eu mulher, me senti em tantas de suas poesias e melodias. Julia canta e nos toca com suas verdades, com seus olhares.  Soltar cavalos é um disco de  extrema qualidade sonora ( salve Chico e Luíza) e que abre porteiras para uma cantora grande, forte, mulher que não se cala!
Elisa de Sena

"Que prazer escutar o disco novo da Julia Branco, que quente, que próximo, que curioso! Quantos sabores senti, quantos sons percebi, quantas cores vislumbrei. Ao soltar os cavalos, fiz o passeio completo, dancei, me percebi forte, não tive medo de nada, me escrevi cartas, prestei atenção, toquei o terror, e principalmente não esqueci dos peixes. Um disco pra alto mar. O de verdade ou aquele dentro da gente, cheio de dobras."

Letícia Novaes ( Letrux)

Me assustei quando soube que Julia estava pedindo musicas a outros
compositores para compor o repertório do seu primeiro disco solo.
Os textos que a Julia escreve são ótimos , ela cria as melodias, porque ela está pedindo musicas com um material tão incrível nas mãos?
Fiquei com isto na cabeça, sem entender direito, então disse a ela que
deveríamos gravar somente suas próprias composições.
Acho que ela não tinha se dado conta de que já tinha um repertório incrível nas mãos.
Aproveitando que o universo feminino está totalmente presente nos textos da Julia, resolvi convidar a Luiza Brina (excelente violonista que também tive o prazer de produzir) pra fazer parte deste projeto e juntamente com a Julia fomos dando forma, criando o conceito e a estética do disco.
O resultado não poderia ter sido melhor! Foi tão inspirador pra mim e tão prazeroso todo o processo que fiquei com desejo de continuar um pouco mais ao lado destas duas mulheres incríveis,
sair um pouco do estúdio e estar no palco com elas!

Chico Neves

 

…cavalo nutre o perigo em domar a razão humana. A Julia decidiu, aos 30, levar a vida inteira para essa escalada (mas convenhamos que tempo é relativo e a vida pode se revelar em quarenta minutos).  Uma mineira quando solta os cavalos liberta-os por dentro - pelos nós da coluna, que são as ladeiras do interior. Ela escolhe subir a vértebra mais íngreme -a vértebra de todas as vertebras (pois quanto mais alto mais horizonte se vê). Cada cavalgar é revelado em ritmo/movimento, sempre em ascensão, assim sendo, o que se viu já não é mais - uma pedra da ladeira é Belo Horizonte, a outra é Minas Gerais, Brasil, América Latina, Terra, etc. Para soltar os cavalos é preciso saber montá-los pois é comum que eles fiquem catatônicos diante da liberdade ofertada pela ladeira. O curioso é que a Julia (que sabia soltar) não sabia cavalgar e por isso convidou o Chico Neves, mestre da equitação. No decorrer da criação a verdade foi revelada: o Chico não ensina, ele invoca (ele também é mineiro e o seu lugar de fala é entre o silêncio e a palavra). Este é o resultado do querer e poder, é o primeiro disco que a Julia assume seus “cavalos”. É um exercício de liberdade, é um ensaio para um relinche, e por isso é um ato de Amor. O Amor é a não-razão em compaixão pela razão, é a conjugação do verbo relinchar transposto em escala muito maior que o medo.

Diego Bagagal

Missão Afetiva: Soltar cavalos

Confesso ser uma missão. Tentar e conseguir dedilhar sobre uma obra que tenho a leve sensação que sempre existiu. Uma flecha certeira sagitariana, que mira com graça e assenta. Deixa um poeira no ar, com rastros de que algo grande nasceu e saiu obstinada. Como é uma flecha-mulher. Assim, com uma emoção terrena com olho mareado, vejo sombras de uma mulher artista que toca o que quiser. Sombras que se ampliam. E para as sombras, sabemos, é preciso luz. Escuto imagens quando escuto a Julia, seus timbres, livre navegando doce nesse mar. Que num balaio junto com o a grande Luiza e Chico, souberam converter sonhos em sons. E além de contemplar uma voz, várias vozes de outras mulheres, é um convite para cantar, dançar, cair, levantar, olhar, gargalhar e re-existir. Novas ideias de esperança. Desde a primeira audição, sem ainda saber o nome do disco, com um queixo querendo não conter algum tipo de emoção boa, me remeti imediatamente ao “sou como um cavalo novo, correndo em direção ao mar”.  Atravessa. Afeta. Toca. Porque só assim a gente (se) solta.         No afã de ser, soltamos cavalos, flechas afetivas.

Maria Elisa Macedo

 

Julia, seu canto é suave, ao mesmo tempo forte. Sinto que ele vem para ensinar como deve ser o campear por sua palavra. Gosto como o som percorre a letra. Quando escuto o álbum ‘SOLTAR OS CAVALOS”, percebo que ele preserva esta marca. O trabalho sensível de Chico Neves e Luiza Brina vai neste sentido: A combinação da sonoridade orgânica com uma levada electro parecem estar a serviço de um discurso. Algo do seu lugar tão particular de mulher comunica em um campo universal, faz ressoar!

Renata Correa